O Problema Dos Professores É Seu Também

Por Ana Cláudia Vieira
 Hoje participei da manifestação de apoio aos professores estaduais de Minas Gerais, que há cerca de 80 dias estão em greve, numa luta por melhores condições de trabalho, salários justos e reconhecimento.

Desde o início da greve, as manifestações dos professores no centro da cidade alteram o trânsito, deixando-o ainda mais caótico. Este fato foi o suficiente para que muitas pessoas se posicionassem contrárias ao movimento, algo como: “poxa, acho justo eles terem melhores salários, mas prejudicar a sociedade já é demais. Afinal nós não temos que pagar o pato”. Eu não tenho nem palavras para expressar o quanto fico incomodada e angustiada com tais reações observadas em diferentes locais de convívio. Será possível que os cidadãos não conseguem enxergar que este não é apenas um problema dos professores, mas, sim, o problema da sociedade? E que a sociedade é prejudicada muito mais, e todos os dias, pela corrupção e descaso com as necessidades do povo?

Para começar, a educação é a base de nossa sociedade, ou pelo menos deveria ser. Na escola formamos nossa consciência crítica e adquirimos conhecimento, exploramos nossa inteligência para um dia seguirmos alguma profissão. É um direito de todos. O profissional que carrega a responsabilidade de formar todos os outros profissionais úteis a sociedade deveria ter lugar de honra e ser devidamente remunerado pela tarefa de importância que cumpre arduamente, apesar das penosas condições. Mas, hoje, vemos professores trabalharem três turnos para terem um salário razoável, serem maltratados na escola, por pais e alunos. Vemos o governo investir tão pouco na formação de nossos Mestres. A lógica é: se os professores não possuem formação adequada, salários dignos e se a educação não é prioridade, serão seus filhos, netos, irmãos e primos que terão uma educação de má-qualidade. Que depois, terão de pagar cursinhos caríssimos para recompensar a falta de conteúdo, e sustentarem o sonho de frequentar uma universidade pública.

Por isso, o problema é seu, sim. E essa de que “os professores sabem como é a remuneração, logo não deveriam ter entrado para a profissão” não cola mais. Se o resto da sociedade se contenta em ser roubada e a ter salários de “merda”, não podem culpar aqueles que lutam por melhorias.

Vou além da educação e do direito básico de ser um ser consciente. Vou ser repetitiva, mas acho que ninguém se importa, afinal, não nos cansamos de assistir, repetidas vezes, a escândalos de corruptos na tevê.

O problema dos professores é o mesmo dos doentes que esperam na fila para atendimento médico, às vezes durante meses;
É mesmo dos pacientes que aguardam a autorização para receberem a medicação que precisam;
É o mesmo de todos aqueles que já perderam pessoas queridas por falta de atendimento;
É mesmo de todos aqueles que vivem trancafiadas em casa, vítimas da violência;
É mesmo do crack e de todas as outras drogas;
É mesmo do trânsito caótico e das tarifas de ônibus exorbitantes;
É o mesmo da PM, PC e Corpo de Bombeiros que, vira e mexe, também estão às portas da prefeitura manisfestando insatisfação;
É mesmo dos estudantes que lutam há décadas pelo meio passe;
É mesmo que impede cerca de 14 milhões de pessoas de serem alfabetizadas e faz com que outras 16 milhões estejam na miséria extrema.
É o mesmo dos jornalistas, que há pouco foram nacionalmente envergonhados ao serem tratados como capachos, perdendo direitos que qualquer trabalhador deve ter.
É o mesmo problema que faz o Brasil estar entre os primeiros em corrupção e entre os que mais exploram seu povo.

Só pra pensar, o BH tem 41 vereadores e o Brasil todo, cerca de 8.000. E estou falando dos vereadores, pois na escala da politicagem, são os que menos devem ter benefícios. Mas ainda há os senhores deputados, estaduais e federais, prefeitos, governadores, ministros, secretários etc. Alguém reclama de pagar os altos salários desse grupo menosprezável? Alguém vai pra rua gritar que isso ta errado? Lógico que não, néh...Vai atrapalhar o trânsito...

O problema é mesmo que nos deixa tão indignados e ao mesmo tempo tão passivos. Quem nunca sentiu aquela revolta e, paralelamente, grande impotência, por não saber a quem recorrer, o que fazer. Pois bem, é isso que se faz: luta-se, coloca-se a bota no trombone.

E vêm reclamar que “a manifestação está atrapalhando o trânsito”. Ora essa, tenham dó! Tenham vergonha. Este movimento é de interesse dos pais, dos alunos e de todos os setores dessa sociedade egoísta. É um problema social.

Por isso, eu convido a todos meus amigos a se sentirem livres para tirar a bunda cadeira e irem às ruas, lutar por uma educação de qualidade.  Devemos nos habituar a ter direitos. Até agora só vejo obrigações.

Quantas vezes ouvi meus colegas e amigos, nostálgicos, dizerem que nas décadas de 70 e 80 as pessoas eram mais engajadas, mais críticas...iam ás ruas lutar... Mas, pra mim, as pessoas são as mesmas. Basta tirar a “bunda” quadrada da cadeira. Mas nos venderam essa idéia, de que o melhor já se foi, de que não adianta lutar, não adianta fazer nada, além de votar (doar seu direito de escolha ou dar deu direito à terceiros), trabalhar igual um burro de carga e esperar passivamente que as coisas mudem.

Acorda meu povo. Cada um pode fazer sua parte e hora é sempre “o agora”. Não devemos deixar que esse governo mal intencionado nos coloque uns contra os outros.

Os professores continuam em greve e outras manifestações virão. E eu estarei lá, pois acredito em um mundo melhor e não vou me dar ao luxo de esperar que este mundo simplesmente exista pela vontade de Deus ou pela boa vontade dos políticos. Vou Gritar o meu desejo.

Quem quiser vir comigo, seja bem vindo.

"O PROFESSOR É MEU AMIGO, MEXEU COM ELE MEXEU COMIGO"

*texto escrito com paixão. Sem edição.

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