Aquele lugar
















Há tempos, aquele lugar parecia absurdamente inabitável, creio, desde que coloquei pela primeira vez os pés naquelas ruas. Era para ser por pouco tempo, até as coisas se resolverem. De qualquer forma, descer no mais fundo do poço é bom para engrandecer a alma, valorizar o bom e o bem, quando, ocasionalmente, os encontramos.

Mas, nos últimos tempos, toda aquela atmosfera contaminada e poluída constituía-se em uma vida simplesmente insuportável. Talvez estivesse permanecendo por tempo demais. Comecei a me sentir como o lugar: sujo, irrecuperável.

Tudo naquele bairro parecia velho demais, em decomposição, uma espécie de começo de inferno, uma zona de convergência entre a razão e a loucura. Por um instante, tive dúvida a qual dos dois eu pertencia. Nas ruas havia restos, sempre restos: restos de homens, restos de dignidade, de orgulho, de amor, de humanidade. Sobrava maldade, medo, rancor, tristeza, sujeira, lixo e dor.

A rua cheirava a tristeza, súplicas eternas por uma gota de vida. Era impossível não se contaminar. Eu chorava e minhas lágrimas caiam já gastas, secas.

Tentava fechar os olhos, rezava para não ser visto pelas criaturas - mortos vivos - que rastejavam famintas a espera de uma vítima, que lhes daria um pouco de vida.

Mas eles viam-me e olhavam-me com desconfiança e desejo: meu olhar ainda demonstrava muita vida, muito brilho, eu destoava de tudo, talvez reluzisse.

Então eu prendia o olhar no chão, ignorando a realidade. Alguma vez, em algum lugar, alguém havia me dito que eu nunca, jamais, deveria olhar nos olhos da maldade, ou então, perderia a sanidade. Fechava os olhos para não ver tudo a minha frente: fezes envelhecidas, vômitos adormecidos, marcas de urina escorrendo pelo chão, nas esquinas, em meio a pessoas, que dormiam.

Fechava os olhos e imaginava as tardes no bosque gramado, os banhos na água limpa do rio, as risadas e gargalhadas das crianças. Lembrava de quando passava as tardes olhando o céu azul, tão azul, e das noites em lua cheia, em que a única luz era a das estrelas...e isso era perfeito e completo.

...

O odor de álcool e cigarro, de sexo e de falta de vida que desprendia do lugar tirava-me o poder de abstração e levava-me à realidade. E a realidade era um sonho de terror: casas e casarões velhos, memórias de tempos austeros, em decomposição, habitadas por mortos vivos. De dentro ecoavam sussurros de dor e lamentações.

As paredes desbotadas descascando, como feridas purulentas, sempre úmidas, abrigavam toda espécie de insetos rastejantes e venenosos. Tudo era úmido e pegajoso. Tudo tinha a cor amarelada de doença crônica, o verde musgo do lodo e roxo azulado do apodrecimento. Naquele tempo as náuseas e as enxaquecas acompanhavam-me sempre.

Sabe-se lá que memórias cada uma daquelas casas guardou em si, boas ou más lembranças...não importava, ali nada era bom...tudo se transformava nos mais sórdido dos sentimentos, em dor, em morte.

Tudo estava em decomposição, assim como os sonhos de cada um que passava pelas ruas...Restos de mucos, restos de roupas, calcinhas rasgadas, resto de alimentos azedos, animais em decomposição, pessoas em decomposição, travestis, bêbados, putas, catadores, mendigos, homens, mulheres, crianças, velhos, carros, sonhos e desejos - tudo, absolutamente tudo, estava se degenerando e cheirava a morte. Nada estava no tempo, tudo se perdera.

As crianças... Sim, elas também estavam lá, e também estavam em decomposição. Olhavam-me a espera de redenção, implorando por piedade e salvação. E eu não as ajudei, não pude, não tive forças para tirá-las de lá.

Não sei bem como sai de lá. De repente, só o que me lembro, de repente não estava mais lá. Hoje vejo, eu começava a enlouquecer, a fazer parte, começava a ter o olhar amarelado, opaco e sem vida de súplica, assim como todos os outros.

Creio que foi um anjo piedoso que me tirou de lá com suas asas brancas naquela tarde que olhei de frente a maldade que vinha em minha direção. Mas não me lembro...