Manifesto da mulher moderna

Não me comparo a Evas, Marias, Joanas, Ana’s, Anitas, Helenas, Madalenas, Catarinas, Elisabeths, Isabeis, Carlotas, Joaquinas, Dandaras, Chicas, Chiquinhas, Teresas ou Nefertitis.

Joguei ao vento o conceito.

Deixei de [SER] sedutora, produtora, impostora, sofredora ou sonhadora, companheira, amiga, justiceira, heroína, faceira ou nordestina.

Recuso-me a [SER] moderna, bem sucedida, decidida, resolvida, inteligente, envolvente, coerente, consciente, imponente e decente.

Descarto a boa educação, a obrigação, a ligação e a atenção.

Desconstruí o símbolo e o mito; tirei de minhas costas o peso de ser exemplo e referência.

Desprezo o cortejo, o bom amor, os mimos.

Dispenso [SER] vista, desejada, cobiçada, valorizada ou lembrada... delicada, graciosa, jeitosa, caprichosa, caridosa, gentil e sutil...

Recuso-me a ser [SER] sensível, conectada, plugada, antenada, descolada e empolgada.

Abdico-me ao salão, às unhas vermelhas, ao cabelo liso ou natural ou comprido ou curto; à maquiagem, ao salto alto, à rasteirinha e ao all star azul.

Rejeito os sentimentos, as boas intenções, a justiça, a cobiça, o amor, o sabor, a dor, a tristeza, a beleza, a certeza, a saudade, o medo, a idade, o desejo e a identidade!

O amor

O amor é uma dor

O amor é um clichê

O amor é um sei lá o que

Que te engana

Te dá esperança

E depois te faz sofrer

Para sempre

02 de janeiro de 2010



Já há algum tempo seu olhar paralisado me chama a atenção. Eu nunca percebi o porquê. A sensação era de ter esquecido algo muito importante. Só agora entendi. Você se foi, eu não me despedi e nem falei tudo que tinha vontade. Na verdade, não falei nada.

Desde então, um monte de palavras estão engasgadas em meu peito e sussurram em meu ouvido o direito de liberdade.

Dizer que morro de saudade e que minha vida não é mais a mesma seria uma bela mentira. O que ocorre, de vez em quando, é uma vaga lembrança de sua presença. Você está longe, não é mesmo? E sempre esteve. Por isso, as coisas não mudaram muito desde sua partida.
Eu falhei. Não segui o roteiro. Quando todos lhe prestavam homenagens, eu não me senti a vontade: fugi. Por incrível que pareça, eu não me arrependo. Tudo foi sincero, verdadeiro.

Fico pensando para onde todos vão ao final de tudo. A morte em si não deve ser o fim. Mas a falta de consciência de uma existência sim. Mas você está vivo, e bem vivo, bem aqui em meus pensamentos. Também tantos outros estiveram vivos em seu pensamento. Agora eles já não são nada. Nem mesmo ausência. Não há espaço a ser preenchido. Todas as histórias, aventuras, problemas, medos, amores...tudo se foi. Eles já não são.

Em mim, as histórias de assombração, o chapéu gasto de vaqueiro, o forte cheiro de fumo, o andar vacilante e as velhas mãos calejadas sempre trêmulas.
Você sempre foi uma figura enigmática. Não conversávamos muito. Só o necessário, como é para todos. Então, como eu ia dizendo, percebes? Você está vivo. Mas, minha memória é falha, traiçoeira. Um dia, inevitavelmente, também cessará. Para assegurar, escrevo TE aqui. Uma homenagem, tardia, é certo, mas quem sabe ainda válida. Certifico-me que existirás além de mim, para todos que virem estas palavras, agora livres.

Sua imagem continua na parede, com seu olhar triste - até parece que carrega a tristeza de todos os outros - sempre intacto. Ela está ficando amarelada, mas, continua lá.