Meu nome é Ana. Digamos que só. Quero que seja assim, porque me considero uma pessoa transparente, sem mistérios. E Ana, talvez por ser um palíndromo, me passa esta impressão. É isso, e pronto.
Tenho 20 anos. Gosto dessa idade. Aliás, gosto de tudo que me parece exato, completo, certo. Gosto do ponto final, da reta, do quadrado e dos números pares em geral. Impar, só se for “um”.
Hoje são 15 de março de 2010. Estou aqui para falar, na primeira pessoa. Nada de “Ele sentiu”, “Ela percebeu”. Não! Estou falando de mim, do que sinto, do que sei!
Bem, quero falar de uma data que merece ser registrada: hoje, o dia em que eu, oficialmente, me transformei e descobri ter medo das pessoas. Não sei se tem um nome para isso. Acho que é sociopatia, ou algo do tipo. Não sei, talvez humanofobia – se é que existe.
Foi assim, ou algo parecido:
“ -...e qual é o seu nome? - Cristina. – Ana, prazer. [...] Então, Ana, eu moro lá também...Se você quiser bater papo um dia. É só me procurar...”,
Simples assim e me pareceu tremendamente perigoso.
A situação era clara para mim:
“Sinto muito querida, mas experiências de toda uma vida fazem-me crer que, pra não me f*, o melhor é nem me envolver.”
A vida em “sociedade”, antropologicamente tão interessante, com toda sua simbologia, na prática seus rituais de interação/integração tornam-se absurdamente cansativos e desgastantes. Já sei de cor. Você vai me contar seus problemas, falar de seu namoradinho idiota e machista, reclamar que seu serviço é terrível, que a vida em família também não é lá essas coisas, explicar como conseguiu todos essas cicatrizes no rosto – de fato, em relação a isso estou curiosa –, me chamar pra tomar uma – ou todas –, falar que gosta de funk – ou, seja lá o que for, não faz diferença – e querer que eu te dê atenção. Vai querer falar das pessoas e de tudo que te incomoda, dentre tantas outras coisas, que no fim, simplesmente não farão diferença. E no fim, vai arrumar uma forma de me sacanear, se fazer de vítima.
Definitivamente, não. Obrigada! Mas agradeço pelo interesse. Agora eu só quero “não saber” do que eu já sei.
E a história termina aqui. Eu sei. Não é um bom fim. Mas quem disse que fins precisam ser bons?