Pra você, e, só você

Leve-me daqui
Para longe das escolhas
Para onde não existam análises
Um lugar em que não exista limite
Em que não exista medo,
Rancor, ou dor de viver
Leve-me-nos para a onde a liberdade não tenha raízes
Leve-me daqui, para onde sejam livres nossas ações
E leves nossos desejos
Leve eu, leve você
Leve.

Hitler era coletivo

Definitivamente não gosto de ações coletivas. Gosto de agir sozinha consciente das consequências. Ter espaço físico, silêncio para refletir, me identificar e pensar. Saber que minhas ações, apesar de partirem de algo maior, são modificadas por meu entendimento, e que são minhas por opção e não movidas pela força de um coletivo. Nesses grupos, se pronunciar de forma contrária é um suicídio social.

Fico observando os grupos-urbanos-isolados/marginalizados-de-discussão de-atitudes-coletivas-pós-moderna. São todos tão radicais, incoerentes, contraditórios, autoritários. Verdadeiros Hitler’s sem poder - ainda bem, imagine pessoas assim com poder. Tentam criar verdades, compartilhar ideologias de vidas vazias e, o pior, querem que o mundo as aceite. Quando não, se fecham em si mesmos, alheios ao que ocorre ao redor. Não são suficientes em si mesmos. Elaboram discursos, repetem, repetem até que se constituam em verdades, como dogmas, uma religião com sua fé inquestionável.

Não há individualidade. A essência e o ideal de libertação se perdem entre regras. Ingênuos, acreditam que as “regras” não são nocivas, se algemam com suas próprias ideias. Nessas ações coletivas, não há indivíduo. Todos se negam, se anulam, passam a obedecer a uma lei imaginária que paira pelo ar. Não há responsabilidade, na medida em que não existe um indivíduo, mas um único corpo. Ela é de todos e de ninguém.

Cada um de nós deve ter consciência de que pode ajudar a melhorar as coisas, ou a piorar, depende da sua escolha pessoal, uma escolha que só cabe a nós, individualmente. Não se trata de apologia ao “mundo individualista, narcisista”. Aceito ações coletivizadas, desde que haja questionamento, possibilidade e flexibilidade. Esperar o coletivo agir, ou agir só em coletividade é uma forma bastante cômoda de não fazer nada. 

Ana

Meu nome é Ana. Digamos que só. Quero que seja assim, porque me considero uma pessoa transparente, sem mistérios. E Ana, talvez por ser um palíndromo, me passa esta impressão. É isso, e pronto.

Tenho 20 anos. Gosto dessa idade. Aliás, gosto de tudo que me parece exato, completo, certo. Gosto do ponto final, da reta, do quadrado e dos números pares em geral. Impar, só se for “um”.

Hoje são 15 de março de 2010. Estou aqui para falar, na primeira pessoa. Nada de “Ele sentiu”, “Ela percebeu”. Não! Estou falando de mim, do que sinto, do que sei!

Bem, quero falar de uma data que merece ser registrada: hoje, o dia em que eu, oficialmente, me transformei e descobri ter medo das pessoas. Não sei se tem um nome para isso. Acho que é sociopatia, ou algo do tipo. Não sei, talvez humanofobia – se é que existe.

Foi assim, ou algo parecido:

 “ -...e qual é o seu nome? - Cristina. – Ana, prazer. [...] Então, Ana, eu moro lá também...Se você quiser bater papo um dia. É só me procurar...”,

Simples assim e me pareceu tremendamente perigoso.

A situação era clara para mim:

“Sinto muito querida, mas experiências de toda uma vida fazem-me crer que, pra não me f*, o melhor é nem me envolver.”

A vida em “sociedade”, antropologicamente tão interessante, com toda sua simbologia, na prática seus rituais de interação/integração tornam-se absurdamente cansativos e desgastantes. Já sei de cor. Você vai me contar seus problemas, falar de seu namoradinho idiota e machista, reclamar que seu serviço é terrível, que a vida em família também não é lá essas coisas, explicar como conseguiu todos essas cicatrizes no rosto – de fato, em relação a isso estou curiosa –, me chamar pra tomar uma – ou todas –, falar que gosta de funk – ou, seja lá o que for, não faz diferença – e querer que eu te dê atenção. Vai querer falar das pessoas e de tudo que te incomoda, dentre tantas outras coisas, que no fim, simplesmente não farão diferença. E no fim, vai arrumar uma forma de me sacanear, se fazer de vítima.

Definitivamente, não. Obrigada! Mas agradeço pelo interesse. Agora eu só quero “não saber” do que eu já sei.

E a história termina aqui. Eu sei. Não é um bom fim. Mas quem disse que fins precisam ser bons?

O homem

refluxo da expectativa
"manipulação de regras"
inconstante dicotomia
hipocrisia compartilhada
falso moralismo
negação do espelho
culto ao inalcansável
auto-flagelação
sindrome da superioridade
medo de ser
sentimento de culpa
distúrbio de adaptação

Se foi

entrou conscientemente na boca da fera
foi parar na barriga do mundo 
espiava pela frestas das escamas a noite com estrelas artificiais
entrou conscientemente a procura de vida, de novos caminhos, de andar sozinha
quem diria!
Se foi.
mas volta, mais esperta, com a beleza da sabedoria
Se foi. 
mas volta senhora de si, senhora da barriga do mundo 
com o destino já traçado, com o destino construído em livre arbítrio
Até!