1 PRETÉRITO IMPERFEITO DO INDICATIVO
Eu, que tinha um amor limpo, sem jogos, e tão único e verdadeiro e imenso que não cabia em mim: ficava a reluzir por onde eu andava, e quando ventava, o vento levava de mim, dos meus cabelos, fragmentos desse amor, dessa magia; preferi a incerteza da liberdade. E todo esse amor, que brilhava também em meus olhos - e meu olhar ficava como que escondendo e prometendo tanta coisa boa, tanta alegria, que até doía o coração; esse amor se expandia ainda mais, para todos os cantos...
1.1 Sentimento de propriedade e subjetivação de conceitos burgueses no pós modernismo
Eu que tinha um amor, que era só meu, era sim, era em minha mente, e tinha uma música feita inspirada nesse amor, porque é o amor - conceito - que inspira, e não as pessoas...essa música foi tocada e tocou até se esgotar, perdeu-se naquele tempo. As notas foram se des-fra-gm-e-n-t-a-n-d-o, desarmonizando, deixando de ser....Hoje, já não andam juntas, não fazem sentido, nem melodia, não lembram nada..não existem...Hoje, quando estou assim desatenta, procurando me perder no azul do céu de verão, tenho a impressão de ouvir duas ou três notas tentando fazer harmonia, mas logo se desfazem e penso: é só impressão;
Eu que tinha um amor que era só meu, quero ter todos...
1.1.1 Inexistência de pontos de referência no tempo
Eu que tinha um amor e não tinha medo, imagine só. Eu que amei simplesmente, sem procurar explicar, ou conceituar...e quis a eternidade para amar; eu que tive certeza; hoje só quero esquecer – e, pra ser redundante até fazer sentido, quem sabe virar verdade –, não mais lembrar; não ser. Mas tem coisas que acabam, mas não deixam de ser, continuam sempre ali, vivas para sempre. É preciso ter muita calma e tranquilidade, sangue frio mesmo, para pensar que lembranças não são o agora, e que, sendo assim, mesmo se elas estão presentes agora, não são reais. O agora, então, não é, e se não é, que venha então o futuro, com todas as surpresas, que são interessantes por serem – SURPRESAS. E a vida é boa, com suas idas e vindas.
2 O MÉTODO DA DESCONSTRUÇÃO
Então, percebo que utilizo um método, pensado em reunião entre analistas do assunto, que elaboraram também um planejamento baseado em dados, expectativas, experiências empíricas, além de vasta pesquisa de campo e, principalmente, teórica. O resultado identificado é que.... ou melhor, o método elaborado é o da desconstrução. É preciso desconstruir TUDO. Cada ideia, palavra, lembrança. É bom jogar tudo quanto for prova viva desse passado no lixo. Aquilo que for real, mas muito abstrato para se jogar fora, desconstrói-se, reconstrói-se, troca-se as peças, subverte-se, quebra-se, entorta-se. Não vês? Tem agora novo sentido, novas lembranças.
2.1 Apego a elementos dramáticos e novelísticos do mass media
Já não há palpitações, apesar de ter aqui um choro engasgado, e o que eu queria era chorar. Chorar tudo isso e, se fosse possível, ver tudo isso se diluir em lágrimas, que correriam livres por meus olhos, em pouco vermelhos, e escorreriam por minhas faces e lábios e cairiam finalmente em meu peito sem ar.
2.1.1 Interiorização do sensacionalismo presente em seriados criminais e investigativos
Imagino uma ferida com sangue podre; e a pele inchada, azul, em tom arroxeado; e essa ferida dói, uma dor tão latejante e intensa, que se espalha por todo o corpo. Mas não há por onde o sangue velho granguenado e infectado sair; então uma faca, sem corte, porque a cura não será menos dolorida, penetra fundo, passa pela ferida e chega onde a carne é vermelha, onde o sangue é vivo e corre com ar, e ela – a faca – desliza de volta, desliza fácil pelo caminho que traçou. Atrás de sua ponta, segue lentamente o sangue velho, denso, doente, escuro, e então, a ferida sangra, e sangra e, o sangue novo tem espaço, oxigena todo o lugar, que um dia foi, e um dia será: saudável.
Fico pensando, e queria que fosse mesmo assim. Mas não é. Não há ferida. Não há carne. Não há amor nenhum. E as lágrimas não caem.
2.1.2 Subjetivação e esperança como forma de aceitação da realidade
Mas eu vou indo, sim, porque hoje escutei a previsão do tempo. O dia será de sol e isso é fato! Não há espaço para subjetividades, imaginações, pontos de vista ou relatividades! Você não vê? Não importa toda a dor e tristeza do mundo, O DIA É DE SOL, e o CÉU está azul, tão azul, tão azul e sem nuvens, que a claridade incomoda meus olhos...não tenho visto muito bem, mas seguirei. Há um rumo, um sentido retomado.
3 NEGAÇÃO E MEDO DA VELHICE POR PARTE DO HOMEM MODERNO
Acabo de me lembrar que o plano era pegar a flor no momento ápice de sua beleza, para não ter que vê-la se acabando, a beleza diminuindo, ela envelhecendo... essas coisas... sabe, igual aquele filme que o assassino matava as donzelas para pegar a essência da beleza de cada uma, e aquele em que o maníaco colocava as moças mortas em um lago pra fazer um jardim aquático e bem, dessa forma, imortalizava-as...Não deu muito certo – pra ninguém - apodreceu TUDO. Parece que existe mesmo algo como um fim inevitável né...já me disseram....e o pior é que teremos que conviver com esse odor de podridão, ou de coisa boa assassinada - para sempre, PARA SEMPRE, eu acho.
3.1 Sentimento de culpa e de perda
Hoje sou uma assassina então... e o resultado é que estou de luto. Minha alma entra em completo, eterno e incondicional luto. Tento juntar as notas perdidas, o cheiro de vida, as lembranças ocultas...É estranho, de alguma forma fico feliz por não conseguir...- não existe, logo, não morre...- de qualquer forma, Eu amarei para sempre um amor terno...um único e sincero e eterno amor. Para sempre será para mim, para sempre serei, sempre.

Estou arrepiada... feliz e triste! feliz por acreditar que ainda existe arte nessa vida e que as pessoas ainda escrevem poesias... triste por não me dar conta da delicadeza e sensibilidade dessa pessoa que por muito tempo seguimos tão perto... felicidades minha querida! Parabéns! Que bom que tenho esse espaço pra ler e viajar quando precisar! Obrigada!
ResponderExcluirbeijoos enormes em seu coração