Domingo, 22 de abril de 2012, Belo Horizonte

Já passou da hora do almoço. Não almocei. Procuro novidades: uma música, uma imagem, uma notícia, uma pessoa...qualquer coisa que me dê novo ânimo ou esperança.

Na sala, meu pai estuda com sua noiva, trabalhos de faculdade, coisas sobre o novo fórum de desenvolvimento social. Ouço pela janela o tintilar de louças do almoço da família vizinha...risos, vozes infantis, carros a passar, uma música a tocar...fragmentos de lembranças, uma saudade, uma flor...

Lá fora o mundo. Em mim brota uma leve vontade desesperada de sair e registrar algo.

Esse domingo, até que enfim, me parece leve e real. Sinto-me presente, depois de tanto tempo, mesmo que me esgueire silenciosamente pelos cantos a observar tudo...sorrateira.

Coração apertado.

“Eu acredito em anjos”

Quando você tem uma grande dor ou, como diz o clichê, “tem o coração partido”, tudo é válido. É quando instintivamente você desce ao “fundo do poço”, “fica na lama”... (desculpem-me as aspas, mas não é a toa que os clichês existem e continuam a ser utilizados; eles servem bem e, bom, não estou interessada agora em construções complexas).

Há um por que de queremos o pior. Procuramos, na verdade, dores mais doloridas, que nos façam esquecer a dor anterior. Vamos além de nossos limites, queremos sempre mais, pulamos de cabeça em situações que claramente não darão certo. Preferimos, de fato, situações perigosas.

É quando experimentamos todas as bebidas e drogas; quando nos relacionamos com os piores tipos de pessoas; magoamos de propósito as que nos amam; expomos nossas fraquezas e sentimentos para dar oportunidade para os maus intencionados; dormimos pouco e em qualquer lugar; somos irresponsáveis. Queremos nos perder, para termos vontade de nos achar e, então, poder criar um novo caminho, fazer aquela dor bem pequenininha, fazer dela a menor das preocupações que se pode ter. Fechamos todas as cortinas, criamos a escuridão, para cada faísca ter algum valor.

É uma espécie de busca pela liberdade. Mas não se pode escolher o que sentir e, por isso, não seremos livres. Sim, eu sei, costumamos dizer que, sim, podemos escolher o que sentir e que somos livres. Vejo, aliás, muitas pessoas dizerem isso. Eu também já disse. Mas quando se é pego desprevenido, não há escolha, não liberdade. Então, você se ferra, vive a se sabotar; e busca um novo caminho, um caminho em que toda dor seja pouca e esteja no passado. 

Costumo, quando bato o dedo mindinho do pé na quina do armário, apertar muito este dedinho. No começo dói mais, mas em segundos fica tudo dormente e já não há nenhuma dor, pelo menos não a sinto...

“Eu acredito em anjos”, mas hoje fugi do paraíso e de todas suas promessas. Vou brincar de me perder e me achar.